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DENGUE

Aedes aegypti, ele ainda vai te sugar.
Entre mosquitos, suas larvas e sapos, fico com o processo de educação da população. Epidemias se controlam com educação e conhecimento, a partir daí é só aplicar as medidas profiláticas com esmero e seriedade. Esse é o único caminho. No entanto, apesar dos alertas dos especialistas da área de epidemiologia as administrações públicas (municipais, estaduais e federal), nada fizeram. Também nada fez a sociedade organizada ou ONGs e OSCIPs de defesa dos direitos humanos ou ecológicas. Portanto, pode-se dizer que a atual epidemia de DENGUE é um descaso, como tantos, da sociedade como um todo, pois, infelizmente, como tantas outras coisas, o responsável por isso é o OUTRO, não nós mesmos. Lembro quando, há, pelo menos, cinco anos eu propagava a idéia de que várias outras epidemias estavam por surgir e era visto como um louco, ou um chato que aborda temas que não são interessantes, isso mesmo que fosse em sala de aula nos três níveis. Por isso, bem-vinda seja a DENGUE, a primeira de tantas outras epidemias que se abaterá sobre a população nos próximos anos. O último a sobreviver que tome as devidas vacinas, se houver.
Escrito por Daniel às 17h35
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ECLIPSE

Mais uma noite e procuro destinos. Olho para uma Lua que começa a ser engolida por um Golem cósmico. Pouco a pouco, como uma digital enorme que se expande como uma ameba mística. As nuvens parecem prestes a encobri-la, mas um vento estranho, muito alto, as dispersa formando um círculo acima de minha cabeça. O silêncio se espalha por todos os lados. Os poucos ruídos soam abafados. A Lua cada vez menor em seu brilho pleno. Olho-a com detalhes, nunca me pareceu tão esférica. Lilith, estenderei meus braços em sonho esperando tua inevitável sedução.
Escrito por Daniel às 20h46
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DESCONCERTOS FEVEREIRO

Direto de Claudinei Vieira (“o Vierinha”, segundo Picanha)
O Desconcertos na Paulista deste sábado convida três jovens autores que agitam e desconcertam o cenário da moderna literatura brasileira. Escrevem, sua escrita ágil, direta, contundente, de altíssimo nível; agitam, mixam, experimentam vários níveis, ousam com música, webdesign, cinema, dramaturgia, artes plásticas; além de participarem ou serem diretamente responsáveis por duas das melhores revistas online de literatura da atualidade: MURO e LASANHA.
NICK FAREWELL, MAICKNUCLEAR, PAULO F.
no DESCONCERTOS NA PAULISTA - A VOZ DA PROSA
Sábado, dia 16 de fevereiro, 18:00,
CASA DAS ROSAS - Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura
Avenida Paulista, 37 - ao lado do metrô Brigadeiro
Escrito por Daniel às 10h07
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VOLTA

Volto para casa pelas ruas amanhecendo. Na mente um caleidoscópio de cenas desconexas. Uma dança quase ritual entre sombras e espaços nas músicas. Toques suaves e distantes. Olhares atravessando o salão. Palavras não ditas. A explosão de uma luz azul acima da testa do lado esquerdo. Seu perfil de traços finos. Acompanho o contorno do nariz até as suaves covas ao redor de teus lábios. Uma buzina forte e evito sair da calçada. O carro passa veloz. As imagens de desfazem. Olho para os lados, atravesso a rua com as mãos nos bolsos. Ela gira ao meu redor deslizando fácil apesar dos passos incertos. Ameaça balançar o quadril, sorri tímida. O toque de sua mão que nunca mais estará. Sinto as promessas que não faremos. Todas as possibilidades se encerram nesses movimentos. Jogo-me na cama, preciso apenas dissolver meu avatar.
Escrito por Daniel às 21h13
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CIDADE OCULTA

Às vezes quando volto para casa, nas madrugadas vazias, vejo luzes que passam rápido. Outras, apenas tremulam, ficam em seu lugar indicando a rota conhecida. Luzes que nunca se apagam na cidade da noite eterna. Passos firmes carregam meu corpo que vacila ante um vento imaginário que insiste em mudar de direção. Meus olhos não param de dançar captando tudo acima e abaixo, de um lado e de outro. Ouvidos atentos a qualquer ruído fora do normal à frente ou atrás. Nessas noites, que até mesmo o predador vira presa se vacilar, apenas caminho guiado pelas luzes indo a algum lugar. Apenas tenho a certeza que de manhã essa cidade não existirá.
Escrito por Daniel às 18h45
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NOITES DE INVERNO

(A pedidos faço uma versão em português)
Em noites de inverno não sinto o frio. Gosto da solidão das ruas quando volto do bar. Parece que ouço ecoar pelas paredes a voz de Tom Waits. Sento-me no quarto e começo a trabalhar. As idéias queimam girando sem parar. Minha cabeça se enche de cinzas brilhantes. O tempo encontra seu próprio ritmo e não paro até terminar. Encadeio os fatos recosntruíndo o passado. Sem pressa. Saboreando cada momento vivido.
Sinto as lágrimas escorrendo por meu rosto deixando um rastro frio, mas não estou chorando. Escuto e não falo. Busco o caminho da compreensão por ruas perdidas em subúrbios imaginários. Chego a sentir o calor do sol entre as sombras da parreira. Uvas quentes que roubei ao cacho de minha infância. Não, não quero falar mais.
Grito pelas ruas como um louco, pois sei que vives em mim, pois sei que meu grito ficará ressoando e removerá as pedras de meu caminho. Já o sei, as noites de inverno não me fazem bem. Por isso sigo em frente esperando a morte a cada esquina, em cada sombra de árvore. Encho meu coração com lágrimas pelos mortos e os vivos. Atiro-me a um precipício interminável sentindo a queda cada vez mais rápida. Nada irá me parar.
Sei que pagam por minha cabeça em uma mesa de bar. Põem-me preço e me olham pelas costas. Sigo em frente como um furacão de rochas disposto a aniquilar com minha fúria o que estiver pela frente, disposto a deixar um rastro profundo neste universo desconhecido. A febre ameniza e contemplo as gotas de chuva que escorrem pelo vidro refletindo as luzes de uma cidade imensa perdida longe em minha memória.
Escrito por Daniel às 05h41
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NOCHES DE INVIERNO

En noches de invierno no siento el frío. Me gusta la soledad de las calles cuando vuelvo del bar. Me parece oír retumbar por las paredes la voz de Tom Waits. Me siento en mi cuarto y me pongo a trabajar. Las ideas queman girando sin parar. La cabeza se me llena de cenizas brillantes. El tiempo encuentra su propio ritmo y no paro hasta terminar. Encadeno los hechos reconstruyendo el pasado. Sin prisa. Saboreando cada momento vivido.
Siento las lágrimas escurriendo por mi rostro dejando un rastro frío pero no estoy llorando. Escucho y no hablo. Busco el camino de la comprensión por calles perdidas en arrabales imaginarios. Llego a sentir el calor del sol entre las sombras de las parras. Uvas calientes que robé al racimo de mi infancia. No, no quiero hablar más.
Grito por las calles como un loco, pues sé que vives en mí, pues sé que mi grito quedará resonando y sacará las piedras de mi camino. Ya lo sé, las noches de invierno no me hacen bien. Por eso sigo adelante esperando la muerte a cada esquina oscura, en cada sombra de árbol. Lleno mi corazón con lágrimas por los muertos y los vivos. Me arrojo a un precipicio interminable sintiendo la caída cada vez más rápida. Nada me ha de parar.
Sé que pagan por mi cabeza en una mesa de bar. Me ponen precio y me miran por la espalda. Sigo adelante como un huracán de rocas dispuesto a aniquilar con mi furia lo que esté por delante, dispuesto a dejar un rastro profundo en este universo desconocido. La fiebre ameniza y contemplo las gotas de lluvia que escurren por el vidrio reflejando las luces de una ciudad inmensa perdida lejos en mi memoria.
Escrito por Daniel às 03h07
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PONTE

Comecei a semana entrando em uma conexão do espaço-tempo. Sentia-me entre dois universos explorando um horizonte de possibilidades. Pensava em uma ponte sobre o mar, no vôo das gaivotas e seu mergulho em queda livre para caçar, enquanto a estrada passava sob meus pés e imaginava a cor do céu refletindo na superfície do mar. Imaginei a ponte à noite, sobre as águas, suas luzes noturnas refletindo sobre as ondas. Num último suspiro outra queda, mais uma vez a queda. O ar passando cada vez mais veloz, nem quente, nem frio, apenas passando. Tudo parecendo tão repentino, fugaz.
Estava a caminho do mangue que se escondia nos remansos do porto. Era de manhã, as nuvens se dissipavam no céu. Eu só tinha que dar mais um passo naquela lama negra do manguezal, apenas mais um passo, depois outro, e mais outro para avançar. O suor cobria meus olhos, ardendo. Todos os sentidos atentos a qualquer sinal de vida, a qualquer rastro ou evidência de sua passagem. Gases com seu odor fétido brotavam a cada passo. Às vezes afundava caindo lentamente rumo a algum lugar. Aquela lama que parecia me sugar para baixo quando eu vacilava, retinha meu corpo como um sonho mau. Caminhei horas atrás de uma garça que caçava. Eu caçava o caçador na natureza.
Lembrei-me de outra ponte, de outra queda, não tão longa. Levando para longe alguém que estava longe. Senti que a única ponte que existia era ponte que nos ligava apesar da longínqua distância que nos separava. Uma distância que nos mantinha próximos por compartilhar essa caminhada. Conheço outra ponte, que me levará para o nada.
Escrito por Daniel às 14h21
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LIMITE

A vida no limite. Longe de considerações acadêmicas ou verdades filosóficas, a morte como, um fato. Não há misericórdia no universo. Não lhe pedi perdão e nunca mais o farei, também não o beijo que não roubei. Sempre há a possibilidade de uma escolha, o destino se perde em uma teia de possibilidades interligadas não-aleatórias. Por isso comecei a assumir minha responsabilidade total em todos os meus atos contra toda a educação que me foi dada.
Comecei por calar-me sempre que possível. Desvendei cada vez menos as tramas de minha vida. Passei a não julgar qualquer ato não praticado por mim mesmo com um firme propósito ou não. Aprendi a não atirar a primeira pedra. Enredado mais uma vez muito além de um anel de Möebius, tudo se repetia igual, mas diferente. Sem tocar o mesmo ponto novamente. Fluindo em uma espiral ora excêntrica, ora intrínseca, oscilando como as marés ao sabor dos ventos.
Tantos enganos por precipitação, tantas perdas por inação. A busca do ajuste das ações aos fluxos de possibilidades que se apresentam fazendo escolhas de múltiplas conseqüências a cada passo, a cada ato. Levar em conta a mortalidade do ser deixando a importância pessoal para trás como uma roupa velha e carcomida. Desenhos desbotados em folhas quebradiças, amarronzadas pela nicotina. Uma memória frágil que se despedaça aos poucos restando apenas capítulos relevantes de uma vida perdida no dia-a-dia.
Escrito por Daniel às 20h02
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MIRISOLA´S ON THE TABLE
(direto do blog de Don Pierre Masato)
Semanalmente em:http://www.thebooksonthetable.com.br/loja.phtml?ccat=63&sess=db62fe835423fc60be48f7c59fed5da7
“Apanhei um bocado naquele maldito lugar. E planejei algumas vinganças, porém nunca sujei as mãos de sangue: desde aquela época meu prazer consistia em articular minha desgraça junto à desgraça dos outros; cavar buracos cujas vertigens eu fazia questão de deliberar de acordo com o troco a ser implementado. Confesso que é difícil não me gabar: mas sempre fiz as escolhas adequadas. Tanto fazia se errava ou acertava no alvo”.
(Trecho de QUATRO ALFINETES NEGROS, Publicado em 22/outubro/2007)
Escrito por Daniel às 01h13
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PREDADOR

Me arrastava carregando uma inércia enorme. Havia coisas que definitivamente não começava. Outras, não deixava de fazer. Com isso em mente abri novamente o livro sem saber porquê. Caminhava com os olhos pelas linhas regulares de páginas amareladas. Sem memória. Apenas a seqüência de sensações que as palavras encadeavam em um passado que não me pertencia. Lentas, suculentas, palavras pronunciadas.
Caminhava lentamente em um bosque profundo. Pés em um tapete de folhas de pinho. O silêncio denso, os aromas puros. Acrescentando linhas desconexas ao diário de viagem como naturalista insólito. Fragmentos de poemas, pensamentos, liturgias místicas perdidas na memória de um continente desconhecido. A cada passo os aromas que subiam. O silêncio rompido. Com as mãos chegando próximo sem tocar nada. Sem trilhas definidas para seguir. Apenas um caminhar constante que se alongava em uma espiral excêntrica. Para fora, como fazem os predadores.
Escrito por Daniel às 11h08
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SEGREDOS

Pedais de bicicleta e cabelos ruivos soltos ao vento quente de um dia de verão. Eu nas sombras contemplando o brilho que os raios dourados do sol espargiam sobre teu corpo tornando-te irreal. O perfume do campo invadindo a cidade e me levando com tua imagem para um tempo além do tempo, fora do tempo comum de todos os dias. Tua pele branca como o leite puro de uma fêmea cósmica, a mítica Grande Mãe, Pacha Mama industrializada. Deslizavas na claridade crua desse fustigante sol de verão, eu nas sombras à distância sem sequer sentir teu aroma. Pedalavas, eu caminhava. Ias e vinhas, eu caminhava, observava e parava. Tantas vezes em sonhos, tantas vezes nas ruas pedalando ao sol e hoje não lembro de teu rosto nem sei teu nome. Eternizo os momentos em uma memória que se perderá em meus segredos de tumba.
Escrito por Daniel às 01h56
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MULTIDÃO

Cansado e sozinho vaguei na multidão naquela noite quente. Sorrisos, cumprimentos e alguns papos. O bourbon descendo suave, sem parar. Apesar da proximidade dos amigos permaneci distante. Não foi bem tristeza ou melancolia o que senti. Caminhei procurando algo que não consegui definir. Ia e vinha passando pelos bares, pelas filas. Atravessei rios de palavras sem conseguir me livrar da sensação. Não procurei racionalizar nada, nem me prendi a algum pensamento especial. Perdi-me na multidão buscando a solidão.
Escrito por Daniel às 21h14
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BOURBON SEA

Eu também tive um sonho. Ondas de bourbon douradas reluziam ao sol artificial de lâmpadas potentes. O ruído de mil vozes rugia acima do mar. Eu nadava para a superfície sem nunca alcançar. O ar queimando nos pulmões. Têmporas latejando. O coração parecendo estourar no peito. Um inesperado abraço. Muito além de um sonho. Um toque suave das mãos. Olhos nos olhos e o calor dos corpos distantes.
Linhas de luz cortavam meu espírito de um lado a outro e voltavam. Triturando os restos de sanidade que poderiam sobrar em minha mente embotada. Os ossos doendo pelo cansaço. E eu cagando para tudo e todos. Estava cansado e apenas balbuciava algumas palavras ‘on passant’.
Mataria por ter teus traços belos ante meus olhos, mas não tens noção nem nunca terás. Pois a vida é tudo perante a morte do belo e sublime. No entanto como anátema do cavaleiro andante, não sofro de amor. Vou em frente com pegadas de chumbo, como Jeremias arrasando o que se interpõe em meu objetivo que é mesquinho e só meu e não compete a ninguém.
Pelo menos eu não enrolo ninguém com falsos pretextos e definições cagadas por literatos ou acadêmicos. Cago em todos os doutos cagadores de regras claras e definitivas para a vida. As regras de vossas palavras resvalam por minha pele mais rápido que as gotas de suor que brotam de minha ira. Portanto, se não querem ver demônios de verdade não me encham o saco e saiam de minha frente quando eu passar.
Não confundam minha educação com servilidade, nem meu sorriso com cordialidade. Agucem seus sentidos para perceber que minha espada fere, procura o alvo certeiro e está pronta a decepar o último sopro medíocre de sua vida em alguns segundos.
Chega. A parada é coisa antiga. Só quero mais uma dose entre músicas que eu escolher e a solidão de meu espaço, e ficar tão distante de tuas possibilidades quanto tua medíocre imaginação permitir, pois estarei tão distante perdido em espirais desconexas que parsecs serão pouco para definir.
Eu e meus anjos, eu e meus demônios, no Bourboun sea.
Escrito por Daniel às 11h54
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